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Mulherzinhas

Data adicionada : July 28, 2010 08:01:08 PM
Autor: Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
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Inês Pedrosa (www.expresso.pt)
0:00 Quarta feira, 28 de Julho de 2010

Pior do que os homens que se armam em porta-vozes dos sentimentos "das mulheres", só mesmo as mulheres. O paternalismo intragénero é do piorio - um espectáculo de cancã com plumas de altruísmo, muitos néons e colares de pérolas, enfim, coisa de gosto mais que duvidoso e perigosíssimas consequências. Qualquer ser com um mínimo de senso sabe que não se podem dizer coisas como "as mulheres (ou os negros, os gays, os judeus, os árabes, escolham...) estão sozinhas". Às vezes dizem "desprotegidas", ou "abandonadas" - e aí somos directamente catapultadas para o tempo em que as mulheres eram florzinhas, gatinhas, umas entidades meramente vegetais ou penugentas.

Há dias, na televisão, uma senhora de uma associação que se opôs ao direito à interrupção da gravidez fazia o balanço dos três anos da lei nesse astuto tom de luta em prol dos direitos das mulheres. A ideia que se pretende passar é essa: ser contra a lei que permite a interrupção da gravidez é ser-se feminista. Porquê? Porque, desde que existe a lei, "as mulheres" ficaram mais "sozinhas" e são "obrigadas" a abortar. Quando o médico presente tentava demonstrar a insensatez do argumento, a senhora contra-atacava, repetindo: "Eu estou no terreno, eu oiço as mulheres." Ora, no terreno estamos todos: e ninguém no seu perfeito juízo pode acreditar que um brutamontes qualquer arraste a mulher (ou a filha, ou a amante) pelos cabelos para o centro de saúde - ao contrário do que podia fazer, em total impunidade, quando se tratava de a levar para a abortadeira clandestina. O outro argumento destas almas dedicadas a governar a vida alheia são os números: dizem que cresceram, nestes últimos anos. Uma outra senhora chegou ao delírio de escrever que os cerca de 19 mil abortos anuais correspondem exactamente às crianças de que Portugal precisa para combater o envelhecimento da população. Chamo-lhe delírio, porque as gravidezes interrompidas não deixariam de existir se não houvesse a lei. A mim, esse crescimento dá-me satisfação: significa que o aborto clandestino está a desaparecer. Como é lógico, não basta que a lei entre em vigor para que as mulheres corram para os hospitais. Têm medo de ser vistas. É preciso dar tempo para que as mulheres ganhem confiança no sistema de saúde. Se cresceram as interrupções de gravidez legais, foi porque desceram as ilegais. Quando uma mulher quer interromper uma gravidez, interrompe-a mesmo. A pintora Paula Rego dizia, em entrevista ao "Diário de Notícias" (11/07): "(...) via tantos casos - agora já não - que me cortavam o coração. As pessoas na Ericeira iam dar mortas à praia, com as barrigas meias cheias como as vacas". Eu também me lembro. Conheci demasiadas mulheres que perderam a saúde e a vida por abortos miseravelmente feitos. O planeamento familiar é muito bonito - mas, isso sim, não depende só delas. Há homens que proíbem as mulheres de tomar a pílula, para não serem "galdérias". Homens que se recusam a usar preservativo porque entendem que as mulheres estão ao seu serviço.

Nenhuma mulher interrompe uma gravidez por ordem de outrem - nem as que levam pancada durante toda a gravidez. É esse o grande poder delas: podem ter filhos contra a vontade dos pais (abram as revistas cor-de-rosa, e vejam a que ponto e com que perversidade algumas delas utilizam esse poder). Até podem ter filhos sem contemplar o direito da criança a conhecer a sua filiação paterna (este, sim, é um poder excessivo, porque as crianças têm direitos independentes dos adultos, e o primeiro desses direitos é o conhecimento do seu património genético).

O que realmente perturba os controleiros da moral dos outros é, não a solidão da mulher que se confronta com uma gravidez não desejada, mas a sua liberdade. Queriam que um médico, um padre ou um marido decidissem por ela. Ou que, pelo menos, ela se sentisse culpada, diminuída, amarfanhada. O apelo à criação de uma instância de "justificação" não tem outro objectivo senão o de infantilizar a mulher, no pior sentido. Como é: se ela já tiver seis filhos e viver com um salário mínimo, está justificada? Se tiver uma vida desafogada e sem compromissos é obrigada a ser mãe, sob pena de ser considerada uma vadia assanhada?

Há muitas leis para balançar e corrigir, sim: a lei do processo penal, por exemplo. Ou querem também acabar com o casamento, porque os divórcios têm vindo a aumentar? Daqui a três anos cá aparecerão com o balancete dos casamentos homossexuais, a ver se pega. A única resposta que se lhes pode dar é esta: arranjem uma vida. Só custa no princípio.

Inês Pedrosa escreve de acordo com a antiga ortografia

Texto publicado na edição da Única de 24 de julho de 2010

 
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